Carpintaria inteligente: “Futuro da construção passa pela madeira”

Garantia é dada por Miguel Teixeira, administrador da portuguesa JJ Teixeira, a maior carpintaria inteligente da Península Ibérica.



A madeira é e sempre foi um material de excelência na arquitetura e design de interiores. Graças ao seu caráter versátil, permite criar ambientes únicos e diferenciadores. Mas não só. Na construção, assume-se como um material do futuro, diminuindo os custos e tempos de obra, além de ser mais sustentável e minimizar os impactos ambientais. Procurar formas inovadoras de trabalhar a madeira é o que faz a portuguesa JJ Teixeira, a maior carpintaria inteligente da Península Ibérica e uma das maiores da Europa. O idealista/news falou com o administrador da empresa, Miguel Teixeira, para perceber quais são as tendências do momento.

“A construção sustentável marca uma das tendências mais relevantes deste setor, no qual as exigências são particularmente acrescidas pela delicadeza de recolher e trabalhar a madeira”, explica o responsável, em entrevista.

Especialista na arte de trabalhar a madeira, a JJ Teixeira assume-se como uma família de engenheiros-alfaiates. São nos dias de hoje uma ‘smart carpentry', isto é, uma carpintaria dos tempos modernos, que une no presente dois universos: a tecnologia e o ‘handmade’. Produzem desde apainelados, armários, cabines fenólicas, caixilharia, closets e cozinhas a decks, divisórias, escadas, estantes, tetos, pavimentos, portas, portadas, revestimentos ou roupeiros, engenhando soluções de carpintaria, como dizem, “para sonhos de todas as dimensões”.

Neste momento, e na direção de um futuro mais sustentável, estão a estudar uma nova área de negócio. “Encontramo-nos numa fase de desenvolvimento de estudos sobre a construção estrutural em madeira. Não tanto num conceito fechado, mas numa lógica de processo construtivo. É um projeto que pretendemos desenvolver a longo prazo, por acreditarmos que o futuro da construção passa pela madeira”, refere Miguel Teixeira.

Dão resposta a qualquer tipo de projeto, desde residenciais aos hoteleiros, passando por escritórios, hospitais, espaços públicos, comerciais e culturais, em qualquer parte do mundo, tal como explica o responsável na entrevista escrita que agora reproduzimos na íntegra.

Theatre Auditorium de Poitiers / Foto: Fernando Guerra


Tudo começa nos anos 70 com a “paixão de João Teixeira pela arte de trabalhar a madeira”. Que tipo de trabalhos fazia na pequena oficina no início da atividade?

Foi no início de 1977, com a paixão de João Teixeira [o fundador da empresa e patriarca da família] pela arte de trabalhar a madeira, que foi criada a pequena carpintaria, numa pequena oficina em Vila Nova de Gaia e sem grandes recursos, que hoje se designa JJTeixeira. A sua atividade começou com uma máquina universal, na qual eram feitos trabalhos de pequena escala e trabalhadas apenas pequenas componentes de madeira com finalidades muito específicas. Dois anos depois, tinha-se já transformado numa carpintaria industrial, mas sempre familiar.

Hoje em dia, são a maior carpintaria inteligente da Península Ibérica e uma das maiores da Europa. Que balanço fazem destes anos? O que mudou na vossa forma de trabalhar? E do lado dos clientes?

Ao longo destes 45 anos, naturalmente que crescemos muito, seja em termos de capacidade, de recursos humanos e de tecnologia, seja em termos de competências, de projetos que abraçamos e de parcerias que estabelecemos. A última década tem sido marcada por uma forte digitalização das nossas instalações, que nos têm permitido automatizar processos e aumentar a precisão e a qualidade do nosso trabalho. O cliente, mais do que nunca, espera um trabalho muito personalizado a cada ideia, a cada projeto, e isso tem-nos levado a reforçar significativamente as nossas equipas de desenvolvimento e de design como forma de assegurarmos resposta às crescentes exigências e desafios que nos vão surgindo.


Casa da Estrela / Foto: João Guimarães


Que tipo de peças produzem?

Toda a nossa atividade parte da madeira e, enquanto 'smart carpentry', estamos aptos para trabalhar uma imensidão de componentes com as mais diversas finalidades. Em termos de serviços, prestamos consultoria, fazemos desenvolvimento técnico e a própria instalação. No que toca a peças, a nossa produção vai desde apainelados, armários, cabines fenólicas, caixilharia, closets e cozinhas a decks, divisórias, escadas, estantes, tetos, pavimentos, portas, portadas, revestimentos e roupeiros.

Toda a nossa atividade parte da madeira e, enquanto 'smart carpentry', estamos aptos para trabalhar uma imensidão de componentes com as mais diversas finalidades.

A que tipo de projetos se dedicam? Hotéis, residencial, escritórios?...

Atingimos um nível de maturidade que nos permite dar resposta a qualquer tipo de projeto. Atualmente, temos mais de 150 projetos a decorrer um pouco por todo o mundo e vão desde os residenciais aos hoteleiros, passando por escritórios, hospitais, espaços públicos, comerciais e culturais.

Podem dar exemplos?

Dos mais recentes, destacam-se o Prata Riverside Village, com Renzo Piano Arquitetos; o One Living e o Palacete Henrique Mendonça, ambos projetos dos Frederico Valsassina Arquitectos; o Mosteiro de Alcobaça, do arquiteto Souto Moura; a reabilitação do Mercado do Bolhão, da autoria do arquiteto Nuno Valentim; a Fundação Champalimaud do arquiteto João Nuno Laranjo ou a Casa das Freiras e Casa da Bonança, com o atelier Mário Martins, que recebeu Menção Honrosa nos Architecture Prize.


Escola de artes e ofícios de Ovar


Conseguem identificar algum projeto que tenha sido mais desafiante?

Uma vez que olhamos para cada projeto caso a caso, é difícil identificar apenas um como particularmente desafiante, porque cada um deles, muitas vezes, nos obriga a encontrarmos soluções muito adaptadas a circunstâncias muito específicas. Pela sua dimensão e complexidade, talvez possamos destacar o Palácio da Justiça de Paris, o Teatro Auditório de Poitiers ou a Cofragem da Barragem de Bemposta.

Quais são as tendências do momento? Em termos de ambientes e materiais, ou seja, revestimentos, pavimentos, por exemplo...

A construção sustentável marca uma das tendências mais relevantes deste setor, no qual as exigências são particularmente acrescidas pela delicadeza de recolher e trabalhar a madeira. Ainda assim, procuramos constantemente fazê-lo com base em práticas ambientalmente certificadas e que traduzam esse seu valor para o cliente. Outra tendência muito valorizada é o design nacional, sendo que o saber-fazer português e a qualidade da sua oferta têm sido reconhecidos globalmente. Estamos, por isso, a desenvolver-nos também no sentido de promover os talentos portugueses e a estudar parcerias que, de alguma forma, se possam materializar neste sentido.

Outra tendência muito valorizada é o design nacional, sendo que o saber-fazer português e a qualidade da sua oferta têm sido reconhecidos globalmente.

As demais tendências que seguimos acabam por ir ao encontro da procura por determinadas soluções que são ditadas pela própria arquitetura e pelo design de interiores, aos quais nós nos vamos sempre adaptando.


Rua das Flores / Foto: Fábio Peixoto


A procura por casas pré-fabricadas em madeira também disparou nos últimos anos. E há cada vez mais opções no mercado. Produzem materiais para este tipo de habitação? Já pensaram arriscar neste segmento?

Efetivamente, as casas pré-fabricadas têm ditado uma grande procura por parte do mercado global e há cada vez mais players a procurarem posicionar-se neste sentido. No nosso caso, numa estratégia de diferenciação, encontramo-nos numa fase de desenvolvimento de estudos sobre construção estrutural em madeira. Não tanto num conceito fechado, mas numa lógica de processo construtivo. É um projeto que pretendemos desenvolver a longo prazo, por acreditarmos que o futuro da construção passa pela madeira.

Encontramo-nos numa fase de desenvolvimento de estudos sobre construção estrutural em madeira. Não tanto num conceito fechado, mas numa lógica de processo construtivo

A madeira é uma matéria-prima de excelência, mas demora décadas a formar-se. O futuro passa pela reutilização e reflorestação?

Estamos certos que sim. O nosso trabalho assenta no pressuposto do fecho de ciclo de vida do produto e, assim, recolhemos a madeira, efetuamos o seu desenvolvimento técnico, efetuamos a instalação e promovemos a sua reflorestação. Para o efeito, implementamos um programa de replantação de árvores, que pretende minimizar o impacto no meio ambiente, efetuando cálculos de medição da quantidade de madeira utilizada em cada projeto com vista à sua reposição, replantando árvores em território nacional, acrescendo uma taxa adicional ao preço final do produto.

De que forma é que incorporam a sustentabilidade no negócio?

Pela vulnerabilidade ambiental intrínseca à nossa atividade, vemos na sustentabilidade um dos nossos mais importantes pilares. Além do programa de replantação de árvores que já mencionamos, fazemos com o que os nossos desperdícios sejam aspirados através de um sistema transversal aos vários pavilhões da fábrica e reaproveitados para várias finalidades, como a criação de novos produtos, o aquecimento das instalações e a produção de pellets e briquetes. 25% da nossa produção energética é proveniente de painéis solares instalados na fábrica. Sendo a madeira um material escasso, atuamos também com base nas certificações PEFC™ e FSC™.



Hospital da Luz / Fernando Guerra


Como é que se une a carpintaria à engenharia e à arquitetura, design e arte?

Através da criação de sinergias estreitas entre ambas as partes, orientadas para a compreensão das necessidades e visões mútuas. A madeira é um elemento muito intrínseco à maioria dos projetos, pelo que a adaptação da sua implementação a cada projeto em função das suas exigências é também um pressuposto que deve ser muito relevante. Felizmente, a tecnologia, hoje, permite-nos ser ambiciosos na nossa produção e acompanhar os projetos mais complexos. A arte está também presente nos corredores da fábrica. Acolhemos um laboratório artístico, o Crude, que permite a integração de alunos de mestrado do ciclo de artes plásticas da faculdade de belas artes da Universidade do Porto, num regime de residência artística.

Como se equilibram os dois universos: o tech e o handmade?

Quando queremos distinguir-nos pela nossa capacidade de olhar cada projeto como um só e fugir da padronização, o handmade assume-se fundamental. O toque humano permanece na nossa atividade, bem como o seu sentido crítico e concetual. A tecnologia acaba por ser uma forma de aumentar a nossa precisão, a nossa agilidade na entrega e a nossa capacidade de resposta e logística. No entanto, crescemos sempre com o pressuposto de que ambas as dimensões são complementares e que devem sempre conviver em pleno equilíbrio, pois só assim damos sentido à nossa existência.

Que impacto estão a ter a subida das matérias-primas, inflação e problemas de abastecimento no vosso negócio?

A subida dos preços das matérias-primas e da energia refletem-se, naturalmente, no preço final, que têm de sofrer ajustes. No nosso caso, procuramos privilegiar a matéria nacional, o que nos permite, por um lado, reduzir a pegada ecológica e, por outro, conseguir reduzir custos de transporte. É através deste género de estratégia que vamos procurando fazer frente à inflação na medida que nos é possível.


Moradia Knokke / Foto: Karel Waignein


Como surgiu a ideia de juntar vários nomes da arquitetura para homenagear a madeira num filme-documentário?

O filme-documentário WoodStories surgiu da vontade de refletir sobre a importância do papel da madeira na arquitetura portuguesa, desde o momento em que nascemos até ao futuro. Temos como objetivo a promoção da arquitetura portuguesa no exterior e bem como do saber trabalhar a madeira. Quisemos, por isso, juntar profissionais de renome, com muito conhecimento de mercado, que partilham a certeza de que sem a madeira nenhum projeto ficaria completo. É também uma forma de demonstrarmos o respeito genuíno que nutrimos pelo recurso que alimenta toda a existência da JJTeixeira. Da textura, ao cheiro e ao som, todo o apurar de sentidos faz com que a madeira seja um elemento único na construção, um material nobre e que não está morto. Daí este tributo.

Por fim, porque é que “não há ninguém que não goste da madeira”?

A madeira é universalmente utilizada com inúmeras finalidades. Em projetos de arquitetura ou de design, é quase sempre uma presença requisitada ou necessária. As pessoas relacionam-se com ela pela sua origem na Natureza e torna-se num produto muito versátil e personalizável aos mais distintos propósitos. A madeira agita os sentidos e torna-se numa matéria viva e capaz de se relacionar, de uma forma ou de outra, com o seu utilizador. É um elemento único, universal, adaptável e que proporciona conforto.

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